(des)ACELERE

19/07

por Kalina Juzwiak

Vivi uma experiência de um mês de mudança de perspectiva. Um mês longe de “casa”. Um mês perto de uma parte da família que não vejo e nem convivo com frequência. Um mês de conexões, de criação de novas amizades e manutenção de antigas. Um mês para desacelerar, reconectar e retomar um novo ciclo que estou projetando para a minha vida nos próximos meses.

Desacelerar.

Não é curioso como parece que todos nós sempre precisamos fazer isso?

Vivemos dizendo que estamos correndo, que estamos trabalhando muito, que não temos tempo para certas coisas, que precisamos escolher, organizar, focar mais. Achava que era uma coisa do brasileiro – de sempre dizer que está na correria. Que está cansado. Mas, nesta vivência no exterior, sinto que é quase que uma sensação geral da humanidade. Mas que varia de lugar para lugar – dependendo do tipo de preocupação e de conexão. Depende da atividade ou a o que as pessoas se propõem a fazer. Depende da perspectiva que colocamos.

Estava eu lavando roupas e tirando as secas do varal. Uma a uma, fui dobrando, dobrando cada meia e cada calcinha. E então ouvi: “ Nossa você tem muito tempo na sua vida! Eu não tenho tempo para isso, apenas jogo tudo na gaveta!”

Por quê eu paro para dobrar as calcinhas? Porquê para mim é um momento de desaceleração. De parar para tocar o tecido, para organizar, para preparar uma sensação agradável do futuro próximo – a próxima vez que eu me vestir, encontrarei uma gaveta organizada e isto vai me dar ainda mais tempo. À curto prazo sim, seria mais fácil simplesmente jogar tudo na gaveta, mas e depois?

Em outro momento, enquanto eu cortava vegetais e os organizava sobre uma travessa para levar ao forno. Cortei cada um, alinhei, desenhei em cores e formas – e depois coloquei temperos por cima. Ao sair do forno, outros se juntaram para comer: “Uau! Que chique este jantar – obrigada. Queria eu poder cozinhar assim sempre.”

E por quê não? Se trata de um momento de conexão com o momento e com o alimento. Foi um jantar super sofisticado? Não, longe disso. Mas ele foi feito com cuidado, com carinho, e isso trouxe uma sensação agradável para todos à minha volta – e para mim também. Demorei mais do que se não tivesse feito desta forma? Acredito que não. E na verdade isto pouco importa – pois o impacto que um jantar simples teve, foi imensamente maior do que seu tivesse feito de forma acelerada ou desorganizada.

E ao mesmo tempo, enquanto organizo as minhas roupas, penduro roupas no varal, cozinho, faço meu exercício todas as manhãs – também produzo, entrego projetos e trabalhos da forma mais eficiente possível. E ai me perguntam, como você vive um mês em uma semana? Como os seus dias parecem ter 48 horas? Porquê tomo o cuidado com cada momento e movimento. Paro, escuto, toco, respiro. Mindfulness? Estar presente? Foco? Produtividade? Tem tantos nomes e conceitos por aí que podem descrever estes estados. Para mim se trata de tudo isto – e a conexão MESMO com cada instante. Criar esta intimidade naquilo que você se propõe a fazer. Sentir como o corpo responde a cada atitude no curto prazo e no longo prazo. Às vezes vivo de forma acelerada e dinâmica. Vivo sim – na grande maioria das vezes. Mas mesmo assim tomo o tempo para cada instante, para ficar em silêncio, sentir e cuidar. Para estar. Para cuidar – de mim e do meu entorno. Porquê tudo volta em energia (no sentido de execução mesmo), em vibrações, em sensações e ao final – no nosso bem-estar.

E, se temos a sensação que realmente não temos tempo de fazer tudo aquilo que estamos nos propondo a fazer, por quê não desacelerar? Assumir que é demais, parar, rever, reorganizar, e seguir novamente. Antes desta viagem a minha vida deu uma acelerada. Me dediquei a terminar, entregar e desenvolver projetos – para poder desacelerar quando chegasse aqui. Exagerei. E percebi quando cheguei, que entrei em um modo acelerado que no fim das contas, não consegui fechar alguns ciclos ou executar algumas tarefas. Não consegui por exemplo me dedicar a escrever um post para o blog aqui. Chegou no dia de postar, e simplesmente não consegui sentar para escrever. Tempo? Posso dizer que tive sim, mas simplesmente não consegui. Me cobrei um pouco, me senti mal – e ai parei, respirei e percebi. Tudo bem. Às vezes é melhor assumir que não conseguimos abraçar o mundo, que não é possível fazer tudo em tão pouco tempo. Que podemos desacelerar, reavaliar e redesenhar a rota. E foi isso que fiz neste caso. Assim que desacelerei, foquei, produzi, organizei e escrevi.

Do que adianta correr com a sensação de que se está sempre correndo?

Do que adianta executar mil tarefas e ao final do dia ainda ter a sensação de não ter de fato feito nada real? Ou nada daquilo que se propôs a fazer?

Do que adianta tentar fazer mil coisas ao mesmo tempo, e ao final não fazer nada direito?

Do que adianta se atarefar até um ponto que já não se conecta com aquilo que está fazendo?

Que já não sabe o que está fazendo?

Que já não sabe o que cada passo gera de sensação?

Que não se conecta verdadeiramente a nada e ninguém?

Pare, respire, se conecte. Sinta tudo e todos que estão à sua volta. Sinta o tecido nas suas mãos, sinta a água escorrendo no seu corpo, sinta os batimentos do seu coração, sinta o ritmo da sua respiração. Sinta cada momento, cada atividade, cada tarefa. Observe a variação de cores em u céu azul. Observe as roupas do varal balançando com o vento. Observe o que o momento – e o tempo – significam para você.

Tempo. Ter tempo – ou não ter tempo. É relativo mesmo, não é?

Conheça meu trabalho:

kaju.ink

@bykaju

@artistakalinajuzwiak