DO QUE VOCÊ PRECISA?

24/08

por Kalina Juzwiak

Menos é mais.

Um termo que tem dominado as redes e as mídias.

Por curiosidade minha, onde foi a primeira vez que ouviu?

Para mim ele surgiu no contexto da criação de ambientes – durante a faculdade de arquitetura. Um ambiente, um espaço, uma perspectiva, uma apresentação, um projeto – podem ter simplicidade e elegância ao mesmo tempo.

E o fato de eu ter ouvido na faculdade, tem um significado, pois você sabe da onde este termo ficou conhecido – inicialmente? Por causa de  Ludwig Mies van der Rohe.

Quem?

Ele foi um arquiteto alemão naturalizado americano, considerado um dos principais nomes da arquitetura do século XX. Foi um dos criadores do que ficou conhecido por International style, onde deixou a marca de uma arquitetura que prima pelo racionalismo, pela utilização de uma geometria clara e pela sofisticação. Concebeu espaços ousados e que transmitem uma concepção de elegância e cosmopolitismo. Também é famoso pelas várias frases criadas por ele, como é o caso das frases “less is more ” (“menos é mais”) e “God is in the details” (“Deus está nos detalhes”).

No meu contexto, na época da arquitetura, e hoje ainda mais quando vivo da minha arte, o termo passou a se aplicar mais e mais nas minhas escolhas e estilo de vida. A comunicação – seja em qualquer ponto de contato – de forma transparente, direta e clara. Ter menos. Menos coisas, menos caos, menos pensamentos negativos. Menos momentos irrelevantes. Menos pessoas que não agregam. Menos. Apenas isso. Para ter mais – clareza, leveza, liberdade e experiências. Menos é mais. Ou pode ser mais – e isso depende apenas da nossa perspectiva. Para mim é sobre soltar amarras e apegos físicos, para estar presente e compreender realmente a beleza dos detalhes. Sinto que todos nós precisamos parar um pouco. Parar para respirar. Parar para perceber. Parar e absorver. O que estou fazendo neste instante? O que tenho e o que disto realmente preciso? Quem está na minha vida neste momento? E se não estivesse amanhã, qual seria o impacto? Onde estou colocando a minha energia? E no que realmente gosto de colocar a minha energia. É sobre estar conectado. Não com redes e tecnologias – e sim com nós mesmos. Com nossas escolhas, caminhos, entorno e nossa intuição.

Vivemos em um mundo extremamente conectado. Sim, estamos sempre atropelando decisões, sentimentos e pessoas. Não é da noite para o dia que o menos é mais – em todas as suas camadas. Antes de entender aquilo que é material, é preciso entender os acontecimentos, observar a vida acontecendo ao nosso redor e organizar os pensamentos e sentimentos. Não é do dia para a noite que você se torna desapegado, ou minimalista, assim como qualquer outra atividade que nos propomos a fazer. Seja um esporte, um trabalho, um relacionamento – eles tem que ser nutridos a cada dia. Tudo se trata de um processo gradual. O desejo de mudança é um reencontro com o nosso eu interior e, para que isso aconteça, o autoconhecimento é de extrema importância, quase que uma peça essencial neste desenvolvimento pessoal – e em direção ao “ter menos”. Precisamos aprender a antecipar os nossos comportamentos, e não nos deixar ser levados por eles. Assim, temos a capacidade de reagir positivamente e construtivamente em qualquer situação que possa vir a acontecer, sem se deixar abater. Todos nós temos dores e angústias. Temos dificuldades e fugas. Mas a sutileza está em perceber o curto, médio e longo prazo de cada movimento e ação. Na maioria das vezes consumimos – bens e sensações – para preencher prazeres momentâneos. Para preencher necessidades momentâneas. Para preencher vazios – que não necessariamente são físicos. Para nos sentimos melhor. E este ciclo pode não ter fim.

E ai entra novamente o nosso querido “parar, escutar e perceber”. O auto-conhecimento. O que precisamos realmente – seja em níveis de relação, de ação ou de possessão? Temos apegos – e eles são imensos. Físicos e emocionais. Praticar isto é um caminho para nos tornarmos minimalistas. Um processo de compreensão e desconstrução, de padrões impostos por nós mesmos e por uma sociedade consumista – ao longo do tempo. Trata-se de um questionamento: do que realmente precisamos para viver bem? E novamente, em todos os âmbitos da vida. Alimentos que nutrem a alma? Exercícios que alinham o corpo e a mente. E bens no geral – seja para decoração do seu lar, para o dia a dia de uma rotina de viver e trabalhar em casa, seja à quantidade de material para executar uma tarefa, seja o número – e qualidade – de peças no armário de roupas.

Sou exemplo? Longe disso.

Venho questionando e praticando, através da rotina e disciplina, esta desconstrução de realmente ter apenas o que é necessário em sua forma e função. Ter – relações, sentimentos e objetos – que realmente preciso. O que é excesso? O que é apenas o alimento para o ego? O que é apenas o alimento para uma insegurança? O que é um apego a uma situação ou a uma pessoa? O que é apenas uma zona de conforto?

Em um processo gradual, a cada dia que me movimento em direção a isso, percebo que menos preciso, que menos quero – que menos realmente é necessário. O que é realmente sustentável para – e comigo – mesma? Quase que automaticamente isto se torna sustentável também para o nosso entorno, para pessoas e ambientes. Hoje principalmente venho aplicando este pensamento na minha forma de consumir (ter) bens e também nas amarras que criei ao longo dos anos, por conta própria e também absorvida de outros. Estou passando por um processo de auto-conhecimento intenso, desconstruindo para compreender e construindo aquilo que sou de verdade. No quesito bens, mudei de casa há seis meses e optei por viver com menos – seja na decoração da minha casa e também no meu armário de roupas.

Há pouco mais de um ano atrás, quando já tinha iniciado esta fase mais intensa de auto-conhecimento, me vi em um ciclo de não encontrar roupas que me servissem muito bem – tanto em tamanho como modelagem. E quando encontrava algo que realmente vestia bem, os valores eram exorbitantes, e me recusava investir recursos para mais uma peça no armário. E assim, decidi parar de consumir roupas por praticamente um ano, enquanto desenvolvia um capsule wardrobe (armário cápsula), ou seja, coloquei a minha criatividade e gosto pela estética para funcionar de outra forma. Me uni a uma amiga e estilista – a Simone Korody – e juntas desenvolvemos um conjunto de peças únicas para compor o meu “novo” armário, que marcaria para mim uma nova fase de vida. A ideia de fazer uma coleção feita de apenas um estilo de peça de roupas – macacões – veio da visão desconstruída de que não precisava de variedade de bens materiais (ou muitos bens) para viver bem. Além disso, também entendi que por muitos anos da vida – principalmente durante a minha adolescência, perdia tempo para me arrumar – e hoje, mais segura do que quero e gosto – e da imagem que construí, busco uma vida mais focada e produtiva para alcançar de os meus sonhos e objetivos de vida com alto rendimento.

E por quê o macacão?

Descobri um padrão de comportamento de muitos anos que sempre me levava aos macacões. Desde pequena foi uma peça que me atraiu – uma peça fácil de vestir, de compor e que pode transitar entre o conforto e a elegância de forma rápida. Uni isso ao meu estilo de rotina – ativa, dinâmica e que ao mesmo tempo exige (pois eu escolhi assim) estas duas características – conforto e elegância. Dessa forma, junto à estilista estudei muitas referências visuais e fiz um estudo de cortes e caimentos no corpo, através de tecidos e roupas de diferentes marcas. E, assim, descobrimos um estilo minimalista que valoriza o desenho do meu corpo e da minha personalidade também. A minha imagem como extensão da minha arte – como uma extensão de quem sou – e busco para mim.

Ao pensar em como as pessoas me veem através da minha arte, identifiquei a paixão pelas cores claras, pela leveza que um branco, um creme ou um off white tem o poder de passar. O branco como equilíbrio do cheio. Como equilíbrio da criação, do mundo de linhas e composições que acontecem dentro de mim. Ao entrar numa loja, sempre vou direto para as araras claras, brancas, ou de tons mais frios – os olhos quase que passam reto por tons quentes como vermelhos, laranjas ou amarelos. São cores que não conversam com a minha personalidade. Hoje fazem seis meses que o meu armário cápsula – de 14 macacões criados para mim – ficou pronto. Desde então, se consumo alguma peça, ela deve compor esta coleção, no sentido de ser um assessoro a elas em um dia frio por exemplo. Consumi alguns macacões fora da coleção de tecidos mais soltos, para o ficar em casa, o dormir ou ou exercitar. Tenho apenas macacões mesmo? Não – além deles tenho casacos, peças coringas como blusas básicas com e sem manga, roupas de ginástica e de banho. Quanto? Não sei dizer em números, mas o que sei é que tenho o necessário. E não mais. E, fora isso, muito espaço nos armários – gavetas e prateleiras que simplesmente são vazias. Vazias mesmo. E hoje sei que este sentimento simplesmente complementa o meu movimento. Ao olhar toda manhã para metade do armário vazia, sinto orgulho, sinto conquista e sinto motivação para continuar neste processo. Até onde vou?

Não sei. Mas por enquanto sei que um armário enxuto me ajuda a praticar este ato de sustentabilidade perante o consumo, diminui o número de escolhas e decisões que faço em um dia, aumento a minha produtividade e rendimento, me trazendo leveza e facilidade de colocar tudo em uma mala e partir para qualquer experiência que aparecer. A atitude de ter, eu sozinha, uma mala, e me adaptar a qualquer ambiente e possibilidade. Não preciso mais do que isso.

E você, do que precisa?

Conheça meu trabalho:

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@artistakalinajuzwiak