Relato de Parto | Juliana Goes e Crica

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03/01

Quando nasce um bebê, nasce uma mãe, nasce um pai e uma nova vida pela frente. Esse é nosso Relato de Parto, do nosso desafio, de um grande susto. Mas protegidos por anjos e amparados pela fé, estamos aqui para celebrar a chegada da Anne Liv, nossa amada filha, nossa bebê fadinha! 


Já estávamos de 39 semanas, após uma gestação tranquila e muito feliz. Muitos livros foram lidos, conhecimentos adquiridos, curso de gestante, preparação com doula. Nosso desejo de um parto normal esteve sempre aqui, sabemos hoje exatamente dos inúmeros benefícios para mamãe e bebê e acreditamos plenamente na divindade do nosso corpo, em gerar e parir. A reta final tinha chegado e com ela, mais ansiedade, inseguranças e alguns medos que iam e vinham.

Diante do novo, ficamos meio que no escuro. Por mais que se leia e se informe sobre fisiologia do parto, sobre contrações e todas as etapas desse processo natural, ainda assim não se sabe como vai ser pra gente. Como vai ser a dor, quão longo será o trabalho de parto, se a bolsa vai estourar ou não, se a dilatação vai engatar ou não. Tudo muito novo, tudo muito vago, já que cada experiência é única, cada mulher vive seu momento, diante do seu limiar de dor, diante da sua própria mente, diante da sua própria superação. 

Resolvemos, numa noite, conversar com a bebê – que ainda não tinha nome – sobre sua chegada. “Filha, eu sinto medo, eu sinto inseguranças, mas que elas não te impeçam de vir ao mundo em seu momento. Esses sentimentos fazem parte, mas muito além deles tem amor aqui e uma vontade imensa de te receber em nossos braços. Quando estiver pronta, venha! Estamos prontos para você também!”. E 3 horas depois ela quis vir. Ela entendeu. Ela confirmou. Ao longo da gestação conversamos muito com ela, falamos abertamente sobre nossos sentimentos, mesmo os indesejados, explicamos como é a vida aqui fora. Contamos sobre quanto amor havia aqui e o quanto estávamos dispostos a aprender com ela. E ela, mais uma vez, ouviu e se manifestou.

Eu tinha deitado para dormir, coloquei camisola e calcinha novas, parecia que iria celebrar algo, e iria mesmo! No meio da madrugada acordei com uma contração bem forte e uma vontade imensa de fazer xixi. Tive dificuldade em me levantar e quando consegui, assim que fiquei em pé, a bolsa estourou!!! Acordei o Crica, meu amigo, marido, companheiro, “amor a bolsa estourou, ela tá chegando!!!”. Era muita água, muita mesmo, me lembro da sensação da água morna escorrendo pelas pernas, alagando o chão do quarto. Fui dando passinhos cuidadosos até o banheiro. Tranquila por saber que bolsa rota nem sempre é sinal de trabalho de parto ativo, nem sempre precisa sair correndo e nossa ideia era ficar em casa relaxando até ter os sinais de contrações ritmadas, ligar pro Dr Bruno Zaher e pra doula, Adriana Vieira. 

Tudo bem, um passo, dois passos, 3 passos rumo ao banheiro. Sentimento uma alegria tão grande, até que aquela água toda começou a virar sangue. Até meus passos serem ensanguentados e todo o chão ficar vermelho… era um rastro vermelho, era muito sangue. Sentei no vaso sanitário, observei a situação e respirei fundo. Respirei ainda mais fundo. O Crica perguntou se aquilo era normal. “Não sei…”. Ele ligou pro Dr Bruno que, sempre disse “o que precisar me liguem, a qualquer hora, meu telefone dorme no travesseiro”. Pois é, o telefone dele realmente dorme no travesseiro, ele atendeu em apenas uma chamada. Ouviu a situação, recebeu duas fotos daquele cenário… disse “vão agora para o hospital” com seu tom calmo, porém sem rodeios. Eu, um pouco desnorteada, sem dor, então achando que tava tudo ok, queria tomar banho… mas o doutor disse para ir imediatamente. Hum… talvez não seja tão ok assim isso tudo. Crica me deu uma roupa dele, calça de moletom, camiseta, enfiei um chinelo e as malas da maternidade estavam prontas, a minha e a da bebê. Recomendações do doutor, sempre preciso, sempre certeiro em seus conselhos.

Crica chamou um carro que chegou muito rápido, nem precisamos esperar, felizmente! No carro eu só pensava em luz, em ondas de amor e proteção para a bebê. Fiz reiki, fiz afirmações positivas, na hora do imprevisto, quando não sabe o que está acontecendo, se desesperar não ajuda em nada. Hoje, entendo e respeito isso, trabalho internamente meu fluxo de emoção para manter a calma. Não é fácil, mas é possível. A bebê não se mexia… isso trazia um medo sem tamanho, mas tudo o que poderia fazer era respirar e mentalizar coisas boas. Em poucos minutos estávamos lá no Hospital São Lucas. 

Dr Bruno já havia ligado lá para deixar tudo pronto, uma equipe de stand by e uma enfermeira nos esperando com uma cadeira de rodas na porta do pronto socorro. E ele, que saiu do outro lado da cidade, chegou 1 minuto depois que a gente. Se eu achava que ele era um anjo, tive certeza, quem sabe foi voando com suas asas nos socorrer. E fomos direto pro cardiotoco. E o coração batia! O coração estava batendo, agradeci, agradeci e orei para que tudo ficasse bem. Dr Bruno me examinou, viu que ainda havia perda de sangue e que não havia dilatação. Meu quadro? DPP. Descolamento Prematuro de Placenta, acomete 1% das gestantes, mas pode ter consequências muito tristes. Ainda bem que eu não sabia… não pesquisei sobre intercorrências, não me fixei em problemas ou complicações da gestação. Só consumi a parte boa da informação e nessas horas penso que a ignorância, às vezes, pode nos proteger. Foi bom não saber de quão grave era a situação. Dr Bruno, desde o dia em que o conheci, me passou uma calma imensa, uma segurança e acolhimento. Tudo isso foi essencial nesse momento. Mais do que nunca!

Dr Bruno entendeu meu quadro, antes de me examinar disse que não era necessariamente indicação de cesárea. Mas após entender melhor, disse que precisaríamos ir para cirurgia, não poderíamos perder tempo naquela situação. E, eu e o Crica, sempre conversamos sobre flexibilidade, mesmo em consulta com o doutor. Um dia ele questionou como era minha flexibilidade se tivéssemos que partir para um plano B que não fosse o parto normal desejado. A gente sabia, que se houvesse risco para mim ou para bebê, iríamos pelo caminho indicado, mesmo sendo cirurgia. E que bom ter isso em mente e no coração… não me senti incapaz, não me senti mal, simplesmente aceitei que se o universo me levou até ali, para que fosse daquela forma. Acolho, confio, entrego e aceito. A gente sempre está onde tem que estar, na hora em que tem que estar. Tenho confiança nisso e acolho. 

Naquele momento tive medo, mais uma vez, afinal toda cirurgia tem seus riscos e a gente já tava em uma situação delicada. Mas mais uma vez, confia, entrega, aceita. E foi. Na sala de cirurgia só conseguia pensar em anjos ali por nós. Felizmente meu marido esteve do meu lado o tempo todo, um anestesista tão presente e sereno que olhava nos meus olhos, segurava meu ombro e isso me passava paz. Meu corpo tremia muito, meus dentes rangiam, reflexo da anestesia. Um sensação ruim… mas sabia que era para meu bem. Estava em boas mãos. E se ouve um choro, o ruído mais precioso, mais lindo que eu poderia ouvir naquele momento. Chorei e agradeci. Havia pedido por favor para que, assim que nascesse, ela viesse para meus braços por pelo menos um instante, para nosso primeiro contato e que o cordão fosse clampeado após parar de pulsar. Ela veio e me olhou nos olhos… o mundo parou… ela estava ali, viva, chorando, olhando pra mim, saudável, forte e guerreira. Tão pequena e tão forte e corajosa. Ela me devolveu o sentido de vida e ela resumiu em um olhar o sentido do amor mais divino e puro. 

Quando levaram ela, chorei e pedi pro Crica, por favor, vai junto, não deixa ela sozinha, por favor! Ele foi, eu fiquei com meu coração partido, mas sabia que tava tudo bem… e logo depois tive outras complicações, mais sangramentos, pressão subiu demais. E o tempo todo os anjos estiveram ali me protegendo e me curando. Deus estava ali, se manifestando mais uma vez, como a todos os segundos, mas estava ali, mais presente do que nunca. Amém!

Anne Liv, é seu nome, filha. Liv é vida em dinamarquês. Hoje entendo porque sentimos que seu nome viria depois que você nascesse. Porque você é vida em nossos corações. Porque você é luz em nossas vidas! 

Esse foi nosso relato de parto. 

Com amor,

Mamãe e Papai.