VOCÊ É FIGURANTE OU PROTAGONISTA NO SEU PALCO?

01/06

por Kalina Juzwiak

Esta semana, dei uma palestra na faculdade de Design em Sorocaba, em uma semana que eles chamam de Open Design, na qual convidam diferentes profissionais do setor criativo para compartilhar suas jornadas, inspirar ou passar uma mensagem para os alunos. Quando recebi o convite de um dos alunos do curso, imediatamente aceitei. “Que oportunidade incrível de olhar no olho destes alunos e passar uma mensagem!” pensei. E ali fiquei neste pensamento, por algumas semanas. Como falar da minha trajetória? “Não quero apenas falar de mim” pensei. Como falar do mercado? Mostrar a realidade e os mitos, mostrar o que é possível, ou o que foi possível para mim. “Não quero apenas falar de números, de fórmulas (elas existem?), ou de como eu enfrentei a faculdade e depois os empregos.” pensei. Como posso realmente falar de tudo isto sem me colocar acima de qualquer um. Sem passar a sensação de que sou de alguma forma autoridade em um assunto. Sem estar ali “na frente – em pé em frente aos alunos” apenas passando conhecimento? Como posso gerar conexão? Como posso ser igual – mas ainda diferente? De uma forma real e autentica?

Separei algumas horas, em meio a uma lista de tarefas, para montar algum material visual para me guiar nesta palestra. Algumas horas viraram um dia todo – e mais algumas horas. Acessei memórias, escrevi, construi uma cronologia, escutei a minha intuição, relembrando a minha trajetória, os meus estudos, conectando pontos e estudando. Acessei detalhes, momentos, escolhas e aprendizados. O que aprendi neste dia, talvez seja impossível colocar em palavras. Percebi que este processo era necessário, depois de tantas mudanças que tenho vivido na minha vida. Percebi que precisava deste tempo para parar e escutar. Para sentir. E neste momento me deparei com uma frase de Maya Angelou –  uma mulher, poeta, negra, com uma trajetória forte e inspiradora:

“Eles vão esquecer o que você disse, eles vão esquecer o que fez, mas nunca esquecerão a forma que os fez sentir”

Antes de subir em um palco e falar. Percebi que era necessário que eu sentisse antes que fizesse os outros sentirem. Me permiti esta conexão comigo mesma. E mergulhei.

Algumas horas antes de chegar na Faculdade para esta conversa, recebi uma mensagem do mesmo aluno que me convidou para falar. “Ka, estou tão animado para hoje à noite! Sinto que vai ser diferente. Que você e a Natasha – amiga e sócia em um projeto chamado WeJam, que também falou naquela noite – vão nos tocar de outra forma. Tivemos muitas palestras esta semana já, mas não tivemos conexão. As pessoas sobem no palco e falam de seus portfolios e trajetórias de uma forma tão distante. Podemos pesquisar estas coisas na internet. Sinto que vai ser diferente.”

Ao chegar na faculdade os organizadores preocupados com o horário logo falaram: “Se conseguirem manter dentro de uma janela de x tempo será ótimo. Pois a partir das 22h os alunos levantam para ir embora. Então se quiserem uma interação é melhor que seja antes disso.”

Saímos da faculdade às 23h, e ainda assim acompanhados de alunos – que pareciam não ter toda a pressa para ir embora. Saímos com abraços, com perguntas, com sorrisos – dos alunos e do corpo docente também. Que ao final disse: “Nossa, eles estavam vidrados em vocês. Isto nunca aconteceu antes.”

Foi uma noite especial.

Mas afinal, o que foi diferente?

Trouxemos uma outra perspectiva.

Vestimos outra perspectiva.

“Vocês são gente como a gente” – escutei no final.

Não subimos no palco com a intenção apenas para falar. Subimos para estar, para conectar, para somar.

Conseguimos incentivar os alunos através de perguntas, dinâmicas e reflexões – conectadas a relances das nossas memórias e trajetórias. Conectamos histórias e experiências, à aprendizados e ferramentas. Conectamos momentos de dificuldade à perspectivas de passar por cima delas. Conectamos os nossos momentos atuais com uma trajetória que percorremos. Vivências e escolhas. Olhamos eles nos olhos. Ao final da nossa fala, sentamos no chão para estar no mesmo nível (de olhar) que eles. Pois estamos. Já estivemos naquelas cadeiras também. Não somos diferentes. Ou sim somos. Escolhemos ser todos os dias. Escolhemos vestir lentes que conectam, que deixam o ego de lado, que tem a capacidade de tocar (a nós mesmos antes dos outros). Fizemos um mergulho na nossa intimidade para nos abrirmos. Somos empreendedoras – somos sim! Somos mulheres – somos sim! Temos dificuldades – e muitas! E não temos mais medo de falar delas. Todo dia é dia de um mergulho. Um mergulho para o nosso momento na vida, para as nossas dificuldades, para as nossas capacidades, habilidades e ameaças.

Isto foi tudo em uma palestra. Foi sim! Mas posso dizer – porquê sinto – que hoje acordei diferente. Vesti outra perspectiva quando sai do banho pela manhã. O palco serviu como elemento físico para me fazer lembrar* que o nosso palco existe e acontece o tempo todo. Somos figurantes ou protagonistas da nossa própria história? Somos figurantes ou protagonistas nos nossos encontros, nas nossa amizades, nas nossas conexões, nas ações e relações? Você está se deixando levar pela vida, ou se tornando a razão diretamente responsável pelos seus resultados?

*nota: Por quê digo lembrar? Porquê às vezes também esqueço. Às vezes acordo desanimada. Tenho inseguranças e dificuldades. Tenho gatilhos negativos. Me sinto cansada. Mas não deixo que isto me paralize. Todos os dias levanto, para trabalhar, para criar, para estar. E às vezes lembro – e relembro – que quero e posso sim ser protagonista no meu palco – ou naqueles que eu subir em algum momento da vida. E você também pode.

Conheça meu trabalho:

kaju.ink

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@artistakalinajuzwiak